Fricções

A marionetista Juliana Notari ao lado dos artistas Ivo Grieco e Heri Brandino, criam a performance Fricções para o marco dos 150 anos de nascimento de Joaquín Torres-García. A obra parte da ideia de que o sentido se constrói no atrito entre estruturas, reunindo marionete, corpo em dança e marimba em um campo relacional onde cada linguagem afirma sua presença ao mesmo tempo em que é tensionada pelas outras.
O trabalho dialoga com o pensamento do Construtivismo Universal, no qual TorresGarcía organiza o espaço a partir de uma grade visível que abriga símbolos essenciais como o peixe, o coração, o sol e a lua. Esses signos arcaicos não ilustram narrativas nem pertencem a um tempo histórico específico. Eles condensam vida, centro, energia e ritmo, ativados pela relação entre ordem e fricção.
Em Fricções, essa lógica simbólica se desloca para o corpo. A marionete é concebida como corpo-signo, construída a partir de eixos, articulações e costuras que tornam visível sua estrutura. O gesto nasce do atrito entre controle e resistência da matéria, instaurando uma fricção contínua semelhante àquela que, em Torres-García, tensiona signo e grade.
A dança estabelece um diálogo direto com essa estrutura, alternando estabilidade e deslocamento, presença e variação, em ressonância com os ciclos evocados pelo sol e pela lua. A marimba inscreve o tempo no espaço por meio do impacto e da
reverberação, aproximando-se do peixe como símbolo do fluxo, do movimento e do retorno.
Assim como no pensamento de Torres-García, Fricções não se organiza por narrativa, mas por relação. Corpo, som e estrutura configuram um campo simbólico vivo, onde o universal emerge como experiência sensível, construída na fricção entre matéria, gesto e tempo.

Ficha técnica
Ideia original e direção: Juliana Notari
Marionetes e fricções: Juliana Notari
Marimba, instrumentos de madeira e Fricções : Heri Brandino
Danças e fricções : Ivo Grieco
Produção: Casa Colorida

Fotos de Paulo Pereira